Relativamente à herarança, devo dizer que que não precisas de te preocupar com o imposto. Vou dar-te uma pista metafórica. (disse metafórica sim senhor) Numa pacata aldeia do interior, dois taberneiros todos os dias se embebedavam com 10 tostões, para quem não se lembra, em moeda antiga era 1$. De manhã, o mais atrevido percorria os escassos 100 metros que separavam as duas tabernas, com os 10 totões na algibeira e pisava a soleira, tossindo e escarrando para o lado direito, para junto de um velho banco de madeira, que servia as tardes de conversa junto à porta da taberna. -Tão Zéi, bom dia. Será que hoje ainda chove? a terra dum cabrão não há meio de dar cava! (isto passava-se no tempo em que ainda chovia). -hum, é capaz! -Bom, seja como for, bota aí dois! O zéi enchia dois copos com vinho, que ambos emborcavam de seguida, com um AAAHH, no fim. O taberneiro "visitante", pegava nos 10 tostões e ... - Paga aí Zéi. - Pago está! O Zéi jogava os 10 tostões para um canto da gaveta do balcão de madeira, que fazia soar um chocalho, não fosse alguém em tempo de miséria, jogar mão ao alheio. Cerca de uma hora depois, o chocalho soava de novo. desta vez não para entrar dinheiro, mas sim para o Zéi tirar os mesmos 10 tostões e percorrer os tais 100 metros até à taberna concorrente. -Tão, eu não disse que chovia?! -Pois é, tá mau! -Bota aí dois. O ritual repetia-se. O Zéi pegava nos mesmos 10 tostões e... -Paga aí! -Pago está! E o outro jogava a moeda para uma lata de bolacha maria torrada, da marca Triunfo. Durante todo o dia, outra coisa não acontecia, senão este vai-vem em jeito de visita. Ficaram famosas as bebedeiras que ambos apanhavam, com apenas 10 tostões. Consta que ao fim de um bom par de anos de boa vizinhança se terão zangado, porque um deles terá decido aumentar os copos de vinho para 6 tostões. Foi tal a desavença, que chegam mesmo a vias de facto. Um deles ao dar em retirada, vai soltando injurias e chega mesmo a fazer um gesto obsceno ao dobrar da esquina. O outro, não está com meias medidas, pega num copo de três (o famoso e verdadeiro copo de três), e joga-lho com a certeza de lhe acertar. O cabrão do copo falha o alvo e vai acertar na lombêra da mula do Pardelha, que ali estava engatada à carroça. A magana da mula que era espantadiça que nem cornos, prega de salto e coice e desata a fugir em direcção da casa da ti Rosa Pintainha que andava a estender roupa. A carroça encalha no estendal e arrasta roupa arame e tudo. A Maria Rita do Galinha que estava à conversa com a Carolina do Camões, são surpreendidas, pelo arame do estendal e não conseguem evitar uma cambalhota. Valeu o Zé Coelho, para evitar uma tragédia, pois a carroça ía em direcção do galinheiro do ti Zé Mamão. Durante anos, os dois taberneiros não se falaram e cabrão do copo nunca mais se viu.