No seguimento da história anterior, veio-me à memória uma conversa passada na tasca de um dos intervenientes: a Taberna do "Ti Zéi".
Nos dias de feira, aquela aldeia atraía muitos visitantes quer de terras vizinhas quer de lugares distantes que ali se deslocavam para fazer negócio.
Durante a manhã decorria sempre a "feira do gado", localizada num extremo da aldeia mas relativamente perto da dita tasca. Ali se apresentavam os melhores exemplares da zona do gado vacum, cavalar, ovino, caprino e ... canino!... (é que só raramente o negócio não se concluia numa taberna, de onde resultava uma inevitável "cadela").
Foi na sequência de um destes negócios que o "Gama" (imponente representante da etnia cigana na região) e um "peleiro" (homem que viajava de terra em terra a comprar peles para curtir) oriundo da zona de Ourém/Leiria, se juntaram na tasca do "Ti Zéi" à volta de uns copos de tinto ("traçadinhos" para o peleiro que não queria ser enganado pelo cigano).
Ora o que se passava era que o "peleiro", de nome Jaquim, queria "impingir" uma mula "de serviço" ao Gama!!! Este não estava muito pelos ajustes em relação ao preço, argumentando que a mula era "Velha, coxa, cega,... enfim, que tinha todos os defeitos". O "Peleiro", sabendo que estava a lidar com um "expert" na matéria - e querendo esconder que a mula já tinha muitos quilómetros nas patas - chamou o Seca-Adegas, que estava ali ao lado a fazer juz ao nome, e pediu-lhe que atestasse sobre a qualidade da mula. (De notar que o velho Seca-Adegas tinha como meio de transporte um grande burro cinzento-claro "amestrado" que o levava sozinho para o monte à noite, após a habitual "Procissão das Capelinhas" do dono).
- Ti Seca - diz o Peleiro - a minha mula tá ou não tá impecável?
- Oh 'migo Jaquim, até se me seca a "graganta" ...
- Ti Zéi... avie aí um copo o' Ti Seca...
- Obrigadinho 'migo Jaquim, pois a su mula... a su mula... a qual? a nova ou a velha???
- São as duas novas, Ti Seca!!! é a mais escura que o amigo Gama tá interessado!
- Ah essa?!! - fazendo uma pausa para beber de uma só vez o tintinho
- Oiça 'migo Gama, garanto-lhe eu que sei disto hein, essa mula ... quem ma dera p'ra mim! Se ela soubesse o caminho de Cujancas, quem a comprava era eu. Essa meto as mãos no lume por ela, 'migo Gama. Na feira nã havia "ninhuma", ouviu bem?, "NINHUMA" que lhe chegasse aos calcanhares...é garantido!
- Então amigo Gama, que me diz? - pergunta o Peleiro todo inchado.
Ao que o Gama responde na sua voz pausada e cigana:
- Migo Jaquim, sabe "qantos" tipos de cabrões há???
... o peleiro e o Ti Seca ficaram boquiabertos com aquela pergunta e na expectativa...
- Há "trêis"!
- "Trêis"??? - interrogam os dois em simultâneo.
- Sim, trêis - e explicou - há os que são e nã sabem, os que sabem e nã "s'importem", e os "quêmados"!
- Os queimados? - duvida o Peleiro.
- Pois, migo Jaquim, os quêmados... sã aqueles que "metem as mãos no lume por elas"!...
... fez-se uma pausa silenciosa em toda a taberna...
... e todos, sem excepção, olharam pelo canto do olho para as próprias mãos...
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P'rá semana volto aqui p'ra contar outra das muitas histórias que se passaram à volta daquela taberna e, aproveito para convidar a quem visite este blog, a deixarem histórias curiosas do nosso Alentejo. Deixem um comentário com o vosso mail que oportunamente forneceremos o contacto para onde as enviar.
Até breve seus "quêmados.