Segunda-feira, 12 de Março de 2007

A BOMBA

Emílio saiu da aldeia do interior do país onde nasceu, para dedicar toda a sua vida profissional à Guarda Nacional Republicana. Como qualquer guarda, fez serviço em várias localidades do país, mas foi em Lisboa que cumpriu grande parte da sua actividade profissional.
Entrou para a Brigada de trânsito e sua aptidão e gosto pelas motas, fizeram com que criássemos como imagem principal a seu respeito, a de um guarda da brigada com perfil perfeito: estatura altiva, de botas altas e sempre rigorosamente fardado, aparecia de vez em quando na aldeia e criava em e nós miúdos, um alvoroço enorme em volta da enorme e brilhante mota branca. Costumava acompanhar a Volta Portugal em bicicleta e contava histórias na oficina do Mestre Daniel, que tinha uma oficina de motas e bicicletas, onde se juntavam todos os apreciadores das duas rodas lá da aldeia.
 
No Verão Quente de 75, o Guarda Emílio estava de serviço à então recentemente designada ponte 25 de Abril. Saía das Janela Verdes para a praça da portagem, onde fazia turnos de várias horas seguidas. Era o serviço que menos apreciava e estava sempre desejando que não houvesse qualquer ocorrência pois a burocracia causava-lhe mal-estar.
Um certo dia, quase a sair de turno, um automobilista parou em frente às instalações da Brigada e alertou o Guarda Emílio para um embrulho suspeito que se encontrava no tabuleiro da ponte. O Agente pegou na mota, tomou o sentido de Lisboa e mais ou menos a meio da ponte, lá estava junto da berma da faixa contrária, um embrulho castanho amarrado com cordel, como se de uma encomenda se tratasse. Ficou ali uns minutos, na indecisão de voltar para trás e participar que estaria sobre a ponte um embrulho suspeito, que poderia ser uma bomba, ou apanhar o vulgar embrulho que alguém muito naturalmente ali perdera. Montou-se na mota, percorreu o resto do tabuleiro e regressou em sentido contrário, pensando que alarido se formaria, se houvesse uma voz que, ainda que em surdina, dissesse: está um embrulho suspeito sobre o tabuleiro da ponte.
Parou novamente a mota a uns trinta metros do embrulho, desceu e ficou parado. As pernas tremiam-lhe. – Não, o melhor é chamar alguém (dizia para si próprio). - E se for apenas um simples embrulho perdido? Vão gozar comigo o resto da vida.
Deu alguns passos no sentido do embrulho, parou já muito próximo e examinou-o. Era um embrulho quadrangular, do tamanho de uma caixa de sapatos, forrado a papel castanho, amarrado com duas voltas de cordel em cruz e sem inscrições visíveis. Ficou ali de cócoras a sentir o coração a bater-lhe no corpo todo. – Eu toco naquilo e se for uma bomba não tenho tempo de saber a verdade. Raios, olha o que me havia de calhar. Ergueu-se no sentido da mota, as luzes dos carros batiam-lhe na cara e o corpo ficou imobilizado, como se o cérebro não tivesse ordem para dar. À passagem de um camião, despertou com o enorme sopro de vento e num gesto decidido, virou-se no sentido do embrulho, caminhou em passos firmes, com a boca a amargar e num misto de raiva e aflição, cravou uma biqueirada certeira no embrulho, fazendo-o precipitar-se por ali abaixo.
Nada se ouviu, a não ser um enorme suspiro arrancado do fundo e solto entre dentes.
publicado por Cravadinho às 00:09
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